terça-feira, setembro 19, 2006

O Negro

Nós – os trintões e quarentões europeus - nascemos e crescemos debaixo da manta confortável que os americanos nos deram. Com o Plano Marshall, ajudaram-nos a reconstruir cidades, economias, a auto-estima e a confiança. Com os mísseis, mantiveram os braços soviéticos para além do Muro de Berlim.
E nós, descansados, concentrámos todos os nossos esforços e impostos na construção de Estados Sociais, na aquisição de direitos adquiridos, e de um enorme egocentrismo.
No 11 de Setembro, dissemos “somos todos americanos”. No dia 12 de Setembro voltámos a ser europeus. E após as primeiras notícias da intenção da Administração Americana de intervir no Afeganistão, nós sentimo-nos feridos no nosso desconforto: “Não estamos dispostos a combater inimigos imaginários”, disse o Primeiro-Ministro português da altura, mostrando aquilo que nós, europeus do pós-guerra, somos.
E concordar ou discordar com as políticas de Bush é perfeitamente irrelevante para a questão que se consolidou com o ataque às Torres Gémeas:
De que estamos dispostos a abdicar para preservar a nossa liberdade?

Como disse Mário Soares, e como poderiam dizer Chirac ou Zapatero, estamos dispostos a penitenciarmo-nos pelas (supostas) humilhações que nós, os ocidentais, temos sujeito o povo muçulmano. Estamos dispostos a negociar com quem nos quer, pura e simplesmente aniquilar. Estamos dispostos a esperar que o Presidente Iraniano abdique voluntariamente do seu programa nuclear. Estamos dispostos a abdicar da liberdade de expressão, sempre que isso possa de alguma forma perturbar a “rua àrabe”.
Estamos dispostos a abdicar de tudo, menos do nosso conforto. E isso coloca-nos num campo de concentração de luxo, onde viveremos com maior ou menor terror, com uns calafrios quando andarmos de transportes públicos em Londres, ou noutra grande cidade europeia, mas com rendimento garantido, apartamentos bem equipados, e roupa de marca. E vamos esperar que os atentados diminuam, ou que se concentrem exclusivamente no lado americano, que não é, definitivamente, nesta altura, o lado europeu.

O terrorismo é demasiado negro para que se admitam posições cinzentas: ou bem que estamos do lado de lá, ou do lado de cá. Se não quisermos escolher, o lado de lá escolhe por nós, recrutando-nos à bomba, como em NY, Madrid, Londres...
É nestas alturas que figuras inquestionavelmente defensoras da democracia e da liberdade nos deveriam indicar o caminho. Mas em Portugal, infelizmente, não as temos. Temos burgueses anafados (como Freitas e Soares), que são os primeiros a agarrarem-se tenazmente ao conforto europeu. Também nestes momentos Francisco Sá Carneiro faz muita falta.
NG

7 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Para mim questão é a seguinte: será que os lados são mesmo "pretos e brancos" ou deambulam na gama de cinzentos?
E porque é que temos que temos que estar num dos lados? Acho que temos é que ter uma posição, não podemos é ficar neutros (cinzentos) mas podemos ser azuis, verdes ou vermelhos (não quis ofender ninguém) eu pessoalmente não me revejo em nenhum dos lados, sou totalmente contra qualquer tipo de terrorismo não gosto do terrorismo ignorante e naiff, mas tb não gosto muito de terrorismo planeado.
Enfrentar estas próximas décadas vai ser muito difícil, mas vamos esperar que apareça uma " ...figura inquestionavelmente defensora da democracia e da liberdade que nos indique o caminho."
RR

P.S. 1 Acho que não é o Sócrates.
P.S. 2 O Plano Marshall não foi só uma ajuda para os europeus tb foi bem planeado para levantar a economia americana.
P.S. 3 Não me julgues um anti-americano até gosto bastante deles, mas eles nunca deram nada sem pensar no que recebiam em troca, tal como nós).

2:17 da tarde  
Blogger NG said...

RR,

estás com os terroristas ou contra os terroristas? Para facilitar a tua resposta, adianto que estar contra os terroristas não implica estar com Bush. Aliás, como referi no post, estar com ou contra Bush é irrelevante para a questão.
Se não te sentes bem em nenhum dos lados, pois és um genuíno europeu pós-guerra, nothing (to) wrong about it, és um entre centenas de milhões.

quanto aos teus PS:
p.s. Claro que não é o Socrates!
p.s.s. claro que sim, apenas com uma ligeira correcção: não foi para "levantar" mas para não deixar "cair" (como aconteceu após a 1ª WW)
p.s.s.s. claro que sim, mas qual é o mal da "ajuda interessada"? E por outro lado, a "ajuda desinteressada" existe?

2:53 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

NG, se tivesses lido o meu post atentamente e não com a sofreguidão de me querer colocar contar ou a favor de terroristas verias que não gosto de terrorismo, não gosto de pessoas fanáticas (tenham elas o Corão na mão ou a Stars&Stripes), não gosto de nada que ultrapasse a barreira da razão e da justiça (eu sei que é difícil mas podemos tentar)...Sabes uma coisa realmente eu sou um entre milhões não me sinto mal com isso, mas não sou lá muito Europeista....sou mais pó setubalense!!
Quanto aos PS´s não eram para te picar ou qualquer outra coisa do género eram apenas comentários mas já agora podemos continuar...p.s. não sendo o "Socras" não me parece que possa ser um fantasma, p.s.s. tens toda a razão foi para não deixar cair p.s.s.s existe de certeza, pergunta a qualquer Pai ou Mãe.
Abraços
RR

P.S. A PlayStation ainda funciona.

3:28 da tarde  
Blogger Gabriel Al Ves said...

Se dúvidas houvesse sobre os comportamentos descritos no meu post Cinzento, a resposta de NG esclareceu-as totalmente.

Aliás, como as referências ao Plano Marshall. Quando o presente já não serve para justificar determinado tipo de acontecimentos (neste caso, os erros crassos de W. Bush já não interessam para nada), é um clássico recorrer ao histórico Plano Marshall, demonstrativo da bondade ilimitada desse país onde a democracia,a liberdade e o respeito pelo próximo são valores imaculados. Lembre-se o Tratado de Quioto.

5:42 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Para que isto não acabe mal, espero que todos tenham assinado um tratado de não proliferação de armas de destruição maciça...ou não tenham nada escondido como o Iraque !

RR

6:06 da tarde  
Blogger NG said...

RR (e agora já percebi quem é o "RR"),

li o teu comentário atentamente. Nele tu escreveste "porque é que temos que estar num dos lados"?
Dado que num dos lados estão terroristas, eu acho que temos que estar todos noutro lado. Não há nada de sofrego nisto, só uma questão de principio.
Quanto aos fanatismos, não os podemos meter todos no mesmo saco: há fanatismos inócuos (pelo teu Vitoria, por exemplo),ou os que matam.
Por último, os PSs (eu sei que não me querias picar):
p.s. o Socras, nestas coisas de valores fundamentais, é um "puto". Precisaríamos daquilo a que se costuma chamar "Senadores". Ex-políticos, com estrutura moral.
p.s.s. ok
p.s.s.s. os pais não são nada desinteressados (este assunto dá pano para mangas, depois falamos).
p.s.s.s.s. correcção ao teu último PS: "a MINHA playstation ainda funciona).

Gabi,

lá tás tu outra vez a meter o Bush ao barulho. O que eu escrevi é que os europeus não estão dispostos a mexer uma palha para enfrentar os problemas do mundo, porque contam com os americanos para isso, mesmo para o que se passa nas nossas barbas (Bósnia, rings a bell?).
A referência ao Plano Marshall serviu apenas para enquadrar a sonolência europeia.

E citando o teu grande amigo Pacheco Pereira, gostaria de ver o lado terrorista encarado sem "mas".
Pelo teu discurso, e da tua idosa referência Soares, parece que uma máquina do tempo colocou a guerra do Iraque antes do 11 de Setembro.

6:57 da tarde  
Blogger NG said...

RR,

agora que participas neste blog, habitua-te. A malta anda sempre à porrada, mas damo-nos bem. Ou se calhar por andarmos sempre à porrada é que nos damos bem.

6:58 da tarde  

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