what tomorrow will bring
É muito difícil fazer previsões, principalmente sobre o futuro. Niels Bohr
[ai-dia] é para todos e para todos os dias em que apetece dizer alguma coisa. A relevância é discutível. O bom gosto também. Vá de partilhar.
A questão da minha irregular e fraca colaboração (e nem falo da qualidade dos textos) é simples de explicar: para mim, não é fácil encontrar inspiração nas actualidades que me rodeiam, como tu fazes. A realidade consegue ser repetitiva, enfadonha e, muitas vezes, só o que é lateral me parece interessante.
Senão considera o seguinte: num dos teus primeiros posts, forneces uma ligação para a notícia da separação do Marco e da Marta (o que também me entristece, porque ela foi uma das mulheres mais hot da televisão portuguesa d.FM. [depois da Fátima Medina]). Sei que o fizeste com interesse cómico-irónico, mas, tendo a notícia o interesse relativo que tem, é muito mais estimulante ver que, no espaço dedicado aos comentários dos leitores do jornal em que saiu a notícia, a sra. Leonor Santos se deu ao trabalho de escrever o seguinte, e não estou a inventar: “Marco e Marta, lamento o momento que estão a passar. Acompanhei a vossa história desde o princípio e ficaria muito feliz que isto fosse apenas uma crise. Vocês pareciam muito bem e feitos um para o outro. Lutem por vocês e pelos vosso filho. Dêem se [sic] uma chance. Marco, o trabalho é importante para viver bem e sem faltas. Mas nada recompensa a vida familiar, por favor... lutem. Não se arrependam um dia.”
É por isto que o acessório, o marginal, o ex-cêntrico, é muito mais interessante para mim. É preciso tempo para procurá-lo, porém, e a rapidez e a energia não são dois dos meus fortes. Reconheço que há qualquer coisa de assustador — e sedutor — em constatar que há quem sinta necessidade de escrever “ao” Marco e à Marta. Agora, caro NG, pensa que essa gente vota.
Olha, fiquei tão deprimido com esse pensamento que acho que só volto a estar em condições de escrever daqui por três meses. Poupem-me aos comentários sarcásticos.
ziemssen
Tinha tantos projectos para 2006 que, por falta de tempo, passou logo alguns para 2007.
É isto que é fantástico com os novos anos: o ano está imaculado, nada tem lastro, tudo é potencial, sem arrastar consigo a angústia do fracasso. Porque não pensar, somente, why not?
Não importa se muito do que se projecta jamais se realizará (o processo de auto-descoberta corporal masculino seria muito pouco interessante se a não-concretização fosse um óbice ao devaneio), o vazio do futuro é suficiente para se colocar lá muita coisa, tem algo de reconfortante. A esperança faz isso às pessoas.
Já a nostalgia faz pior às pessoas. Naqueles filmes em que aparece um ancião/gangster/polícia veterano (riscar o que não interessa) a aconselhar o jovem protagonista a não vasculhar o passado (fala-amostra: “Toda a gente quer este caso encerrado, miúdo.”) e o protagonista ignora os conselhos (fala-amostra: “Quando me meti nisto, fi-lo porque acreditava na justiça.”), isso acontece porque o protagonista é um idiota.
O passado como ele foi deve ficar a repousar numa cave escura e húmida da memória. O único passado que interessa aquele que é ficcionado e reficcionado pelo ego, aquele que nos diz que a culpa do que correu mal é sempre dos outros, que no nosso tempo as pessoas eram mais simples-honestas-genuínas, que a televisão tinha mais qualidade.
Vem isto a propósito do meu recente visionamento do primeiro episódio da série Duarte e Companhia, da minha predilecção entre os 11 e os 13 anos. EM QUE É QUE EU ESTAVA A PENSAR? Já tinha tido uma desilusão com as reposições do Alf ― como eu amava aquele boneco, mas tinha-me esquecido, de forma conveniente, que a) a série não tem graça, b) o pai da família que recebe o Alf parecia, falava como e era, com toda a certeza, atrasado mental e c) a filha mais velha não era gira ―, mas o Duarte fez-me decidir que, como resolução para o resto da vida, que o meu passado não mais será remexido (vou abrir uma excepção para o Conan, o Rapaz do Futuro, logo que deixem de tentar lucrar com a minha nostalgia e baixem o preço do DVD).
O primeiro episódio do Duarte tem momentos engraçados: a qualidade das filmagens e da montagem é fraquinha, mas acaba por ter graça ver como as coisas eram; a dupla Tó-jornal a Bola permanece caricatural e bem apanhada; a Fera Humana do Átila antecipa (de forma incrível) o Gimp do Pulp Fiction; o drjhhhh! dos socos continua a soar bem; e a presença do Rocha (hoje treinador-adjunto do Benfica) é, por si só, uma garantia de hilaridade.
Seja como for, já não fazia ideia da misoginia, do cabotinismo, da alarvidade à portuguesa de alguns dos gags com que me deliciava quando era miúdo: só no primeiro episódio, há referências, mais ou menos explícitas — mas sempre pouco subtis —, a mamas, pedofilia na província (outros tempos, lá está), violência conjugal e clisteres. Enfim...
Talvez a série fosse apenas um tratado pós-moderno e lidasse de forma brincalhona com o imaginário popular de então, mas disso não me lembro. Também só vi o primeiro episódio; tenho de ver o resto do DVD para, então sim, ter todos os dados necessários para fazer uma crítica válida. Fica-me um consolo: continuo a achar a grande Paula Mora, 20 anos depois, muito gira. Só me falta arranjar o DVD dos melhores momentos da locução de continuidade da Fátima Medina.
ziemssen