sábado, dezembro 31, 2005

porque o futuro é melhor que o passado

Acabei agora a minha lista de resoluções para 2006: vou perder os tais 20 kg em excesso que tenho, sem recorrer ao xarope de seiva, à cirurgia plástica ou a amputações; vou aprender a tocar trompete, a fazer surf e a falar outra língua estrangeira; e a minha carreira de escritor vai, por fim, descolar, pois vou passar ao papel o best-seller que há muito tenho na cabeça (editando primeiro um pequeno livro de contos só para mostrar o meu talento e para criar uma necessidade na comunidade leitora).

É isto que é fantástico com os novos anos: o ano está imaculado, nada tem lastro, tudo é potencial, sem arrastar consigo a angústia do fracasso. Porque não pensar, somente, why not?

Usando alguma capacidade imaginativa, consigo até visualizar-me a apertar a mão ao Lobo Antunes, que passa a ignorar o opus do Rodrigo Guedes de Carvalho, a cavalgar uma onda na praia de Carcavelos (banda sonora: Point Break, faixa 3) ou a ler Tchekhov no original. A minha imaginação só não chega para me conceber com 74 kg.

Não importa se muito do que se projecta jamais se realizará (o processo de auto-descoberta corporal masculino seria muito pouco interessante se a não-concretização fosse um óbice ao devaneio), o vazio do futuro é suficiente para se colocar lá muita coisa, tem algo de reconfortante. A esperança faz isso às pessoas.

Já a nostalgia faz pior às pessoas. Naqueles filmes em que aparece um ancião/gangster/polícia veterano (riscar o que não interessa) a aconselhar o jovem protagonista a não vasculhar o passado (fala-amostra: “Toda a gente quer este caso encerrado, miúdo.”) e o protagonista ignora os conselhos (fala-amostra: “Quando me meti nisto, fi-lo porque acreditava na justiça.”), isso acontece porque o protagonista é um idiota.

O passado como ele foi deve ficar a repousar numa cave escura e húmida da memória. O único passado que interessa aquele que é ficcionado e reficcionado pelo ego, aquele que nos diz que a culpa do que correu mal é sempre dos outros, que no nosso tempo as pessoas eram mais simples-honestas-genuínas, que a televisão tinha mais qualidade.

Vem isto a propósito do meu recente visionamento do primeiro episódio da série Duarte e Companhia, da minha predilecção entre os 11 e os 13 anos. EM QUE É QUE EU ESTAVA A PENSAR? Já tinha tido uma desilusão com as reposições do Alf ― como eu amava aquele boneco, mas tinha-me esquecido, de forma conveniente, que a) a série não tem graça, b) o pai da família que recebe o Alf parecia, falava como e era, com toda a certeza, atrasado mental e c) a filha mais velha não era gira ―, mas o Duarte fez-me decidir que, como resolução para o resto da vida, que o meu passado não mais será remexido (vou abrir uma excepção para o Conan, o Rapaz do Futuro, logo que deixem de tentar lucrar com a minha nostalgia e baixem o preço do DVD).

O primeiro episódio do Duarte tem momentos engraçados: a qualidade das filmagens e da montagem é fraquinha, mas acaba por ter graça ver como as coisas eram; a dupla Tó-jornal a Bola permanece caricatural e bem apanhada; a Fera Humana do Átila antecipa (de forma incrível) o Gimp do Pulp Fiction; o drjhhhh! dos socos continua a soar bem; e a presença do Rocha (hoje treinador-adjunto do Benfica) é, por si só, uma garantia de hilaridade.

Seja como for, já não fazia ideia da misoginia, do cabotinismo, da alarvidade à portuguesa de alguns dos gags com que me deliciava quando era miúdo: só no primeiro episódio, há referências, mais ou menos explícitas — mas sempre pouco subtis —, a mamas, pedofilia na província (outros tempos, lá está), violência conjugal e clisteres. Enfim...

Talvez a série fosse apenas um tratado pós-moderno e lidasse de forma brincalhona com o imaginário popular de então, mas disso não me lembro. Também só vi o primeiro episódio; tenho de ver o resto do DVD para, então sim, ter todos os dados necessários para fazer uma crítica válida. Fica-me um consolo: continuo a achar a grande Paula Mora, 20 anos depois, muito gira. Só me falta arranjar o DVD dos melhores momentos da locução de continuidade da Fátima Medina.

Por tudo isto, é olhar para a frente, para 2006.

ziemssen